Frei Valdomiro. Por onde será que ele tem andado com sua batina cheirando à perfume de flores e seus lenços de cetim vermelho sobre os ombros? Lembrei que ele era convidado para todos os meus aniversários quando criança. Meu pedido. Nos churrascos da igreja, o Tio Valdo era a primeira pessoa que eu procurava, e quando foi substituído por um tal de Frei Goretti, a espera pelo domingo já não era a mesma. Não gostava de forma alguma do novo Frei, pois além de possuir um sotaque terrível de entender, não encontrava carisma em suas palavras, muito menos conforto em seus versos.
Pode ter sido ali que se perdeu.
Lembrei-me também de uma certa lâmpada vermelha que tinha no canto direito do altar, aonde meus pais e eu sentávamos nas missas, logo ao lado do padre. Meu irmão nunca ia, não sei se por descrença ou para brincar de videogame com o vizinho, seu eterno vício e pecado. Hoje, acredito que aquele lugar deveria ser cobiçado pelas religiosas fervorosas ou pecadores em urgência de perdão, mas para mim era um tanto desconfortável. Primeiro porque dali dava pra todo mundo ver que eu estava mascando chiclete, o que meu pai achava um absurdo, e me mandava cuspir em dois segundos. Depois, porque se eu, eventualmente, ficasse mais distraída ou cansada, tinha que engolir os meus bocejos, e logo pedia desculpas a Deus por não estar prestando atenção.
De qualquer forma, era ali que repousávamos todo domingo, quando em um destes perguntei à minha mãe. “Mãe, o que é aquela lâmpada vermelha acesa?” E ela respondeu que a lâmpada estava acesa para indicar que Deus estava ali, ou Jesus, sei lá, nunca entendi a diferença entre pai e filho. Sei que fiquei longos instantes olhando para aquela luz que não apagava, nem piscava… ”Deve ser Deus mesmo”. Fiz o sinal da cruz, mas continuei procurando pelo interruptor ou pelo fio. ” Será que quando fechassem a Igreja ela ia desligar?”
Ou ali.
Aos poucos, a lembrança da minha catequese inacabada por duas vezes também veio para o jogo. Cheguei a pensar que eu tinha alguma coisa ruim dentro de mim, pois não me sentia bem dentro daquela sala de aula da igreja. As outras crianças eram bem mais novas que eu, o chão era gelado e as paredes de uma cor cinza nada convidativa. Mesmo sendo apenas uma criança de 8 anos, achava tudo que pregavam um tanto fantasioso, e foi no dia que falei à professora que Deus não podia dar conta de tudo, pois se “minha mãe deixasse o carro aberto, Ele não ia fechar e alguém ia roubar”, que dei adeus à minha primeira comunhão.
Pode ter sido ali também.
Lembrei-me de tudo isso ontem, quando depois de um longo inverno resolvi visitar uma igreja. Por algum acaso, ou como diria os evangélicos, propósito de Deus, acabei combinando com duas primas, uma que segue solidamente a religião, e outra que procura por uma, de ir a um culto. Quando chegamos lá, descobrimos que o dia dos jovens seria no próximo, e que aquele era o dia das missões, quando um missionário contaria sua jornada mundo afora disseminando a palavra de Deus. A Igreja contava com, no máximo, vinte fiéis. Primeiro, a pastora nos deu as boas-vindas, nos abençoou e deu início aos louvores. Gostei da parte de cantar, das letras puras misturadas ao som da guitarra e da bateria. Os integrantes da banda deveriam ter pouco mais idade do que eu. No quinto louvor, minha euforia já havia perdido o ritmo e resolvi sentar. Olhei pro relógio. Tentei de novo. Então, uma senhora resolveu tomar o discurso e falar de seu testemunho, o que não estava programado para aquele culto. Falou sobre sua ida à Europa com menos de 100 euros, e como pregou os versos de Deus falando português para holandeses, franceses, e eses. Mais uma vez, senti que fantasiavam um pouco demais, e por algum motivo aquilo me irritou. Principalmente, quando ela disse que estava em Paris no meio do ano, e fazia muito frio. Não é verão lá em Julho? Perdi o controle a ponto de proferir umas duas palavras que seriam consideradas pecado e pedi para ir embora, reclamando até chegar ao carro da estória daquela mulher.
Foi ali.
Foi ali que eu percebi que havia tempo que não parava para pensar em Deus, apesar de acreditar escudeiramente em seus propósitos. Aquilo me assustou. Por minutos, pensei estar possuída. Por outros, estar tão apaixonada pelos prazeres terrenos que me corrigir para o caminho Dele agora seria muito frustrante. Por outro, achei que apenas ainda não tinha achado uma religião que me definisse como seguidora. Quase por fim, coloquei culpa na razão.
Enquanto muitos enchem os olhos de lágrimas para enaltecerem Deus dizendo que Ele é a razão de suas vidas, enchia os meus pedindo para que Ele usurpasse da minha tanta razão. Verdade que ando muito pragmática. Tudo com um fim. A desconfiança faz parte do dia-a-dia, a ciência está aí emagrecendo rotineiramente o peso da fé, dos milagres, do acaso. Tudo é explicado, cronometrado, sintetizado, nanonizado. Fiquei assim também. Estudo e leio tanto a respeito de fenômenos factuais, sociais e atuais, que o encantado me cria desconfianças. Acho que gelei.
Ainda lá na Igreja, observava minha prima louvando, erguendo os braços de olhos fechados, batendo os pés ao ritmo do baterista, fazendo poesia de cada verso da música, sorrindo sozinha, completa. Como queria me sentir assim novamente, ou melhor, pela primeira vez.
Simplifiquei Deus. E não me julgo por isso. Na verdade, até defendo minha filosofia religiosa. Acredito em praticar o bem, sem ter o intuito final de colhê-lo. Acredito em ser bom para o próximo, respeitá-lo, assisti-lo, admirá-lo, incluí-lo. Acredito em ser bom para si mesmo, cuidar da sua saúde, dos seus sonhos, do seu coração. Acredito na religião da família, do amor, da solidariedade, da felicidade, da simplicidade. Acredito em evitar vícios, reaver erros, pedir perdão. Acredito no sol de cada manhã e na certeza de um futuro decente, se for correta em meus atos. Acredito que não preciso rezar o pai nosso tantas vezes ou tantos dias, e que Deus me escuta em todos eles, me corrige, me ensina, em troco de nada mais do que a minha fé em Sua existência, sabedoria e bondade. Acredito que Deus conhece meu espírito, e que ele é bom.
Aí eu vi. Ufa! Não me tornei um pedra, anticristã ou cientista. Ainda acredito em muitas coisas. Incrível como estar fora de um sistema pode te fazer sentir subversiva. Respirei. Alívio. E então, vim compartilhar com vocês a angústia que já passou, e que por vezes, alguns podem sentir. Sei que o mundo anda desregrado, mas acreditemos que somos bons. Façam coisas boas, pequenas, diárias. Ajudem-me a firmar a minha religião, antes que eu enlouqueça…
Fiquem com Deus