Crônicas, Crises, Cotidiano

Março 20, 2007

Mistérios da minha bolsa

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 3:39 pm

Certa vez, pedi ao meu irmão mais velho para pegar o celular que estava dentro da minha bolsa. Ele voltou com o bendito acessório na mão, e me entregou para que eu fizesse a busca. Indaguei o porquê daquilo, e Thiago respondeu com um misto de lógica e espanto: “Eu lá vou abrir bolsa de mulher”?!

Hunf. Não compreendi o motivo do medo… até ontem. Nunca se sabe o que pode ser extraído de um negócio desse, e o que isso pode te revelar.

Durante uma aula entediante, brincava de bagunçar ainda mais a minha bolsa da faculdade, quando achei um canudo de refrigerante ainda com a proteção de papel. Aí você pensa… Por que raios tem um canudo ali? Lembrei dos meus dias de extrema fome e extrema pressa, foi provavelmente num desses que enfiei o fininho na bolsa e devorei a latinha com todos os seus micróbios. Anotar: “usar o canudo da próxima vez, não jogar na bolsa”.

Continuando a exploração, me deparo com uma coisinha redonda, já enferrujada, patinando no fundo de seda de oncinha rosa: era uma ficha para o orelhão. A grande pergunta é: De onde ela surgiu? Eu, sinceramente, não lembro de já ter usado esse recurso, ainda, não acho que o mesmo seja usado hoje em dia. Daí, vem a preocupação: quem poderia estar habitando minha bolsa e com quem queria falar???? Anotar: “mantê-la com o zíper fechado e o mais próximo possível”.

A saga continua. Ainda sobre os metais, acho uma moeda de euro, e eu nunca fui à Europa. Acho que o habitante da bolsinha queria ligar para algum parente francês, dar um Bonjour. Mas tinha que deixar logo ali com os meus pertences? Estou achando isso um quebra-cabeças. Será que é pra seguir as pistas? Anotar: ”Manter a moeda corrente do meu país na bolsa, para não passar o vexame de não ter 1,50 para pagar a xerox da aula de Teoria”.

Descobri também que no dia 05/03/2007, às 17:14:36, sob o número arrrecadador 150074 e a quantia de R$ 3, 40 paga na faixa 10, em dinheiro, eu estava indo para Niterói. Recibo da Ponte SA, e de que eu discretamente tinha matado as aulas da faculdade. Mais ainda, é o comprovante de uma grande alegria que a partir daquela segunda ia fazer parte da minha vida. Mas isso é assunto para outra crônica. Anotar: “Cada escolha, uma renúncia. Ir para Niterói naquele dia foi a melhor escolha do ano até então. Guarde o certificado”. 

As notinhas amareladas amassadas do Redecard também me fizeram entender o ganho de um ou dois quilinhos de um tempo para cá. Em menos de 10 dias, comi 4 vezes no Fastway. Sanduíche com pão de parmesão, duas salsichas, queijo cheddar, azeite, azeitonas, cebola, orégano e batata palha, molhados por 500 ml de Fanta Laranja. Anotar: “Você tem 20 anos agora, e não 2. O metabolismo está mais lento, e você vai engordar. Acredite, você vai engordar. Diminuir a frequência dos hot dogs”.

Que tal segurar uma arcada dentária de silicone?A moldeira que fiz para clarear os dentes também apareceu para a festa. Só não entendi a parte de ela estar lá há mais de 3 semanas, e não nos meus dentes. Pelo menos, ela conheceu a Argentina e a Nova Zelândia nesse tempo, tem estória para contar. Pena não ter gel para ser utilizada. Anotar: “Comprar o gel, tirar essa droga da bolsa e pôr nos dentes, Lorena, acorda”.

Por fim, o momento mais mais assustador para os homens, no verso de uma conta com pagamento atrasado da NET - um recado da minha mãe.

” Os primeiros passos para ser uma dona de casa

1 – Jogar o lixo todos os dias na lixeira, inclusive dos banheiros.

2 – Trocar e limpar a areia do gato 2X ao dia para não ficar com mau cheiro.

3 – Olhar a caixa do correiro 3X por semana.

4 – Colocar roupa suja no cesto.

5 – Arrumar a cama quando acordar.

6 – Passar uma vassoura na casa de manhã ou a noite, todos os dias.

7 – Passar um pano úmido na casa também”.

Se isso me põe tremedeiras na espinha, imagina para um ser humano do sexo masculino. Anotar: “Quero voltar a morar com minha mãe”.

Ponto final. Põe na bolsa.

Março 16, 2007

É longo, mas a viagem também foi!

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 2:30 am

Kiaora, meus amigos!

 

É com o cumprimento maori equivalente ao nosso “oi” que inicio meu registro de 20 dias de férias no paraíso. Antes de tudo, pegue um mapa. Partindo do gigantesco Brasil, procure à sua esquerda um borrãozinho esverdeado próximo à Austrália. Um país dividido em duas pequenas ilhas. Chegamos. Lar dos esportes radicais, das centenas de ofertas de emprego flexíveis e com salários tentadores, dos maoris, da tatuagem, das praias paradisíacas. Kiaora! Você chegou à Nova Zelândia.

 

Depois de 16 horas de vôo, pisei em terra firme. Troquei os dólares americanos pelos neo-zeolandeses, e ainda ganhei uma graninha. Comecei bem. O propósito inicial da viagem seria visitar minha melhor amiga que passava quatro meses no país trabalhando e aprendendo inglês. Aliás, experiência super recomendável.  A Ana faturava 800 dólares por semana catando flores ou frutas, e isso de forma nenhuma me parecia real. Nem mesmo quando me falava sobre todo o respeito com o qual os naturais da ilha se tratavam, da tranqüilidade de se andar nas ruas a qualquer hora do dia e de se dormir dentro dos carros, das estradas sem um buraco sequer, e da lei do silêncio que mantinha um ar espiritual no trânsito imaculado sem as buzinas, e nos terminais de metrô que só anunciavam a chegada do transporte por meio de letreiros. Você acreditaria?

 

Pois acredite. Eu vivi essa experiência, e aprendi muito. Minha primeira aula foi sobre os nativos da ilha, os índios maoris. Eles habitavam a Nova Zelândia antes de os ingleses colonizarem a terra. Hoje em dia, travam a mesma batalha dos índios brasileiros: a tentativa de preservar sua cultura. Com muito mais sucesso, entretanto. Por qualquer cidade que passe, há artefatos maoris. Colares com pingentes de osso, pedras milenares, e couro são os souvenirs mais procurados. Há ainda algo que muitos garotos não deixam de levar na volta ao país de origem – e levam na pele – as tatuagens maoris. Elas são mundialmente conhecidas por serem as pioneiras no estilo tribal. O seu ritual foi o que mais seduziu minha atenção. Caso procure um índio para fazer a sua tatuagem, ele fará uma entrevista com você buscando experiências, valores, aspectos que te definam e ilustram a sua vida. Pode levar um, dois, ou três dias até que ele sinta que conheceu a sua essência. A partir daí, o maori elabora um desenho cheio de símbolos que traduzem tudo o que contou a ele. Tive a felicidade de ver uma tatuagem dessa, e me emocionei.

 

Depois do papo didático, a Ana me apresentou o lugar onde nos hospedaríamos. Um Backpacker. Casas ou prédios projetados e equipados para receber jovens de todos os países por um preço muito bacana (varia entre 15 a 25 dólares neozelandeses por dia). Cybercafe, cozinha comunitária, banheiros, centros de informações turísticas, bares, telefones, sofás espalhados por todos os lados, assim como dezenas de máquinas de refrigerante e guloseimas. Os personagens do falatório tinham os mais diferentes sotaques falando o inglês que todos conhecemos de formas totalmente diversificadas. Convive-se com pessoas das mais diferentes culturas, ouve-se estórias sensacionais e a paquera, obviamente, rola solta. Me impressionou o respeito entre a galera que mal se conhecia. Ninguém pega comida de ninguém dentro da geladeira comunitária, você divide o quarto geralmente com 6 ou 8 pessoas, e pode deixar as malas abertas pois, definitivamente, nada vai sumir. Ia me apaixonando por aquele país a cada hora que se passava, e estava só começando.

 

A primeira cidade do roteiro foi Queenstown, mundialmente conhecida pelos esportes radicais. Pode-se fazer manobras molhadas nos jetboats, pular de pára-quedas de um avião há muitos metros de altura, ou experimentar a sensação única do bungee-jumping. Não poderia sair daquele lugar sem atestar a minha coragem. Procurei o centro turístico mais próximo, e pedi, tremendo dos pés a cabeça, para me inscrever no salto do NEVIS, o segundo bungee mais alto do mundo. 134 metros de altura, num pulo que te dá a velocidade de 145 km/h. Mal dormi a noite, e na manhã seguinte viveria uma das emoções mais indescritíveis da minha vida. Mas vou tentar colocá-la em palavras. A adrenalina aquece teu sangue, seus pés não param, e a única coisa que consegue pensar é em desistir. A batida da música eletrônica na cabine tenta te distrair, enquanto os funcionários do NEVIS te vestem com todos os apetrechos para curtir a queda com toda a segurança necessária. Sugerem que olhe para o ponto mais alto da montanha, respire fundo e sinta a liberdade. Você abre os braços, flexiona os joelhos, e salta para o meio do vento, num silêncio terno e confuso, seu corpo se alterna em sensações de calor e frio, o rio cristalino fica cada vez mais próximo do teu rosto – tudo isto em apenas 8 segundos. Já sonhou em voar? Eu voei.

 

Alugamos um carro, e fomos dirigindo até Christchurch, 400km de distância. Também tem isso. Na Nova Zelândia, é possível comprar, veja bem, comprar um carro em boas condições por mil dólares, viajar por todo o país, e vendê-lo em menos de uma semana ao final da sua jornada. Foi o que fizemos. Até sobre as estradas tenho estórias para contar. De fato, não há um buraco sequer, todas são muito bem conservadas e sinalizadas. Inclusive, a cada curva, observa-se uma placa indicando a velocidade exata para completá-la sem qualquer perigo ou esforço. Perfeito. Tem mais: a cada 20 km, há uma área reservada para os carros estacionarem e os motoristas descansarem, com sombra e banheiros, evitando dezenas de acidentes por cansaço. Como se não bastasse, você ainda carrega no banco do carona o oceano pacífico, ou montanhas com geleiras mesmo debaixo de sol. Dirigir também é turismo na Nova Zelândia, acredite.

 

Christchurch já era maior que Queenstown. Lembrava ao Rio no corre-corre matutino dos engravatados em busca do café, das mocinhas carregando sacolas e mais sacolas recheadas de roupas novas, e dos baderneiros de plantão nas madrugadas. Há uma catedral lindíssima bem no centro da cidade, onde também achamos feirinhas com lembranças interessantes para as amigos que ficaram no Brasil. As boates mais agitadas ficam na The Street, uma ao lado da outra, o que facilita muito os que procuram aproveitar um pouco de cada, já que as entradas são gratuitas. Há uma outra observação: se você beber demais, e o barman entender que já passou um pouco do limite, ele, gentilmente, te oferece uma água, e somente depois de bebê-la você estará liberado para fazer outro pedido. Abaixo a cabeça, e afirmo que fui o ratinho de laboratório desta experiência que agora narro. Fantásticos mesmo são os parques com gramas sempre muito bem cortadas, limpas, e que tocam um rio que corta a cidade, onde os gansos passeiam, e os jovens molham os pés conversando. A colonização inglesa se traduz nos pequenos detalhes, como as tradicionais cabines telefônicas vermelhas e o trem que corre toda a cidade. Chorei ao partir de Christchurch.

 

A última visita foi em Auckland, a capital da Ilha Norte. Se não estiver muito atento, por pouco não acredita estar em Tókio. Há uma quantidade enorme de olhos puxados andando para todos os lados, oponentes letreiros digitais, dezenas de bancos internacionais, e até mesmo banheiros eletrônicos. “Olá, você está entrando em um banheiro eletrônico. Fique a vontade”. A torneira é acionada pelo toque, a descarga é automática, assim como o rolo de papel higiênico. Sensacional. No meio das águas da praia, há um hotel da famosa rede Hilton, projetado para parecer um navio. Durante a noite, ele fica todo iluminado, e somente quem sabe não confunde com uma embarcação. Não cheguei a entrar, mas dizem que a diária supera o valor de mil dólares por dia. De qualquer forma, o Skytower é o cartão postal da cidade. Um hotel que tem em seu topo uma torre com observatório, de onde pode-se ter a vista mais privilegiada de toda Auckland. E mais, os aventureiros podem pular do topo dessa torre, amarrados pela cintura, enquanto os turistas clicam suas câmeras incessantemente.

 

Só há uma coisa da qual me atrevo a reclamar deste passeio: não se atreva a entrar em um restaurante. Nossa, como se come mal. Os pratos são simples, mal temperados, caríssimos (pode pagar num prato de macarrão quase 50 dólares), e certamente vão misturar um creme de abacate salgado no seu pedido. Não entendi quando pedi nachos, e recebi nachos, com creme de abacate e feijão doce. Foi estômago embrulhado por dois dias e menos 35 dólares no bolso. Opte pelo Mc Donald´s, Domino´s ou Burguer King, é mais seguro.

Com cento e cinquenta fotos na câmera, um colar maori no pescoço e uma tatuagem na costela, recordações das mais saborosas aventuras (pois essas sim eram saborosas), duas malas de roupas sujas, e moedinhas de dólares perdidas na bolsa, deixei o aeroporto de Auckland com lágrimas nos olhos, e o sentimento de que nunca mais iria esquecer daqueles 20 dias num lugar onde a civilidade e a diversão coexistem. Saudades eternas.

Blog no WordPress.com.