Crônicas, Crises, Cotidiano

Maio 20, 2007

Nata disso.

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 2:58 am

Um grande problema no Sul, se é que se pode ter algum tipo de dor de cabeça quando se está com os pés na areia, debaixo de um sol maravilhoso e entre um povo que fala cantando, é escolher o que comer. Para os devotos da dieta, Santa Catarina é uma pecado irrevogável, e o inferno tem o nome de Toca do Jurerê. Escolher um prato no cardápio deste restaurante é quase decidir entre verão em Búzios e inverno em Itapaiva. Até que surge: CAMARÃO EMPANADO RECHEADO DE CATUPIRY COM ARROZ COBERTO POR NATA. Quando, por nada, resolvi contestar o uso da nata. Nata. Nata. Me lembrou aquela cobertura nojenta que o leite quente fazia, e que cobria a superfície do meu nescau. Nata disso.  Pedi que o garçom trocasse a cobertura intrometida por queijo normal. Silêncio. Como se eu tivesse tentado ensinar o padre a rezar a missa, ele pegou a bíblia da comilança e me avisou do erro que estava por cometer. Bem-aventurada, aceitei a missão, por vergonha da minha falta de know how na cuisine. Pela primeira vez, a fome passou despercebida. Aliás, antes ficar com a barriga cheia de nada, do que de nata. Nojo. Então, chegou o prato. Lindo. Com camarões que pareciam coxas de frango de tão grandes, que dançavam em círculos em volta do arroz embebido da gosma branca. Mas vamos lá. Garfo na mão, na bandeja, na boca. HUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMmmmmmmm… HUMmmmMMMmMmm….. Cobertura de nata no arroz é o que há. E pensar que eu quase perdi essa.

Gosto de ser pega pela vida de surpresa, assim como a nata fisgou minha língua. Hoje mesmo, indo para o meu segundo dia de Congresso (deste, discuto em outra crônica), e passando pela quarta vez na mesma rua, resolvi olhar para cima e checar o tempo em São Paulo, quando me deparo com a placa de uma rua chamada LORENA. Isso. Cruzava com a do meu hotel. Eu estava ali do lado, e não me vi, por quatro vezes. Às vezes, a gente faz isso.  Esquece da gente mesmo, ou de parte. Tenho vivido numa fome de conhecimento e pontualidade que havia esquecido de uma das coisas que mais gosto: o poder do acaso. Tem coisas que acontecem por acaso. Não lembrava.

Ontem, saindo desse mesmo Congresso, debaixo de chuva, me refugiei na FNAC da Avenida Paulista. Entrei para procurar um gravador digital, mas acabei adquirindo um dvd virgem. Lembrei que havia uma matéria no notebook que queria entregar a um dos palestrantes no dia seguinte. Cheguei no hotel e vi que já tinha o vídeo gravado num cd. E me achei uma otária. 5 reais mais otária. Mas gravei. Nada pra fazer. Gravei. Hoje, levei os dois para a reunião. O que aconteceu foi que surgiu mais um palestrante para quem a outra matéria também seria interessante entregar e me promover. Aliás, essa é a segunda parte que faltava em mim, acreditar em mim mesmo que não acredite que possa dar certo. Dois tiros num só coelho. Epa. Nada de tiros em bicho nenhum, porque me recorda dessa caça aos ursos que me dá calafrios e muita vontade de chorar. O mundo está doido mesmo.

Enfim, o que queria passar aqui para dizer hoje é para não esquecerem que do nada pode surgir uma nata saborosa, é só saber olhar pra cima, para o lado, e também para trás, não só para frente, ansiosa pela chegada do prato. Estou retardando o passo, pisando nas poças de água das chuvas paulistas de havaianas. Sim. Hoje a noite, após chegar ao hotel e tirar a roupa de gente grande, percebi que tinha deixado a droga do gravador em uma das palestras. Do jeito que estava, moletom e chinelos, voltei ao local do Congresso, e só fui perceber a minha inapropriação quando o segurança do prédio me olhou torto. Olhei para o meu reflexo na porta do prédio que não pude entrar e ri. Ri muito de mim mesma. Pois, depois de quase 40 dias, alguém me olhou torto, como se eu fosse displicente, malcriada, revoltada. Eu nem lembrava o que era isso. Que delícia. Saí de lá, sem meu gravador, encarando o vento gelado de 14 graus, desfilando meu moletom, havaianas e sem-vergonhisse na Avenida Paulista às 20h, com todos os engravatos e engarrafados tentando me entender. Pisei na poça, atravessei sinal correndo, prendi o cabelo engrenhado, paguei o taxi com dinheiro amassado, e voltei para o hotel aposentar minha rebeldia de minutos na saudade de escrever, de organizar sentimentos em palavras, de voltar à neurose da intelectualidade, racionalidade.

 Nata disso. Vou desligar o pc agora, deitar na cama e lembrar de mim mesma.

Beijo! Estava com saudades de vocês.

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