Um grande problema no Sul, se é que se pode ter algum tipo de dor de cabeça quando se está com os pés na areia, debaixo de um sol maravilhoso e entre um povo que fala cantando, é escolher o que comer. Para os devotos da dieta, Santa Catarina é uma pecado irrevogável, e o inferno tem o nome de Toca do Jurerê. Escolher um prato no cardápio deste restaurante é quase decidir entre verão em Búzios e inverno em Itapaiva. Até que surge: CAMARÃO EMPANADO RECHEADO DE CATUPIRY COM ARROZ COBERTO POR NATA. Quando, por nada, resolvi contestar o uso da nata. Nata. Nata. Me lembrou aquela cobertura nojenta que o leite quente fazia, e que cobria a superfície do meu nescau. Nata disso. Pedi que o garçom trocasse a cobertura intrometida por queijo normal. Silêncio. Como se eu tivesse tentado ensinar o padre a rezar a missa, ele pegou a bíblia da comilança e me avisou do erro que estava por cometer. Bem-aventurada, aceitei a missão, por vergonha da minha falta de know how na cuisine. Pela primeira vez, a fome passou despercebida. Aliás, antes ficar com a barriga cheia de nada, do que de nata. Nojo. Então, chegou o prato. Lindo. Com camarões que pareciam coxas de frango de tão grandes, que dançavam em círculos em volta do arroz embebido da gosma branca. Mas vamos lá. Garfo na mão, na bandeja, na boca. HUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMmmmmmmm… HUMmmmMMMmMmm….. Cobertura de nata no arroz é o que há. E pensar que eu quase perdi essa.
Gosto de ser pega pela vida de surpresa, assim como a nata fisgou minha língua. Hoje mesmo, indo para o meu segundo dia de Congresso (deste, discuto em outra crônica), e passando pela quarta vez na mesma rua, resolvi olhar para cima e checar o tempo em São Paulo, quando me deparo com a placa de uma rua chamada LORENA. Isso. Cruzava com a do meu hotel. Eu estava ali do lado, e não me vi, por quatro vezes. Às vezes, a gente faz isso. Esquece da gente mesmo, ou de parte. Tenho vivido numa fome de conhecimento e pontualidade que havia esquecido de uma das coisas que mais gosto: o poder do acaso. Tem coisas que acontecem por acaso. Não lembrava.
Ontem, saindo desse mesmo Congresso, debaixo de chuva, me refugiei na FNAC da Avenida Paulista. Entrei para procurar um gravador digital, mas acabei adquirindo um dvd virgem. Lembrei que havia uma matéria no notebook que queria entregar a um dos palestrantes no dia seguinte. Cheguei no hotel e vi que já tinha o vídeo gravado num cd. E me achei uma otária. 5 reais mais otária. Mas gravei. Nada pra fazer. Gravei. Hoje, levei os dois para a reunião. O que aconteceu foi que surgiu mais um palestrante para quem a outra matéria também seria interessante entregar e me promover. Aliás, essa é a segunda parte que faltava em mim, acreditar em mim mesmo que não acredite que possa dar certo. Dois tiros num só coelho. Epa. Nada de tiros em bicho nenhum, porque me recorda dessa caça aos ursos que me dá calafrios e muita vontade de chorar. O mundo está doido mesmo.
Enfim, o que queria passar aqui para dizer hoje é para não esquecerem que do nada pode surgir uma nata saborosa, é só saber olhar pra cima, para o lado, e também para trás, não só para frente, ansiosa pela chegada do prato. Estou retardando o passo, pisando nas poças de água das chuvas paulistas de havaianas. Sim. Hoje a noite, após chegar ao hotel e tirar a roupa de gente grande, percebi que tinha deixado a droga do gravador em uma das palestras. Do jeito que estava, moletom e chinelos, voltei ao local do Congresso, e só fui perceber a minha inapropriação quando o segurança do prédio me olhou torto. Olhei para o meu reflexo na porta do prédio que não pude entrar e ri. Ri muito de mim mesma. Pois, depois de quase 40 dias, alguém me olhou torto, como se eu fosse displicente, malcriada, revoltada. Eu nem lembrava o que era isso. Que delícia. Saí de lá, sem meu gravador, encarando o vento gelado de 14 graus, desfilando meu moletom, havaianas e sem-vergonhisse na Avenida Paulista às 20h, com todos os engravatos e engarrafados tentando me entender. Pisei na poça, atravessei sinal correndo, prendi o cabelo engrenhado, paguei o taxi com dinheiro amassado, e voltei para o hotel aposentar minha rebeldia de minutos na saudade de escrever, de organizar sentimentos em palavras, de voltar à neurose da intelectualidade, racionalidade.
Nata disso. Vou desligar o pc agora, deitar na cama e lembrar de mim mesma.
Beijo! Estava com saudades de vocês.
Mas era a nata do leite mesmo? Sobre o arroz? Vou querer experimentar disso.
A intelectualidade estressa às vezes… Mas já sei a dica para superar: nata.
Bendita nata que te trouxe de volta!
Comentário por wagnermoura — Maio 21, 2007 @ 4:44 am
Mais uma vez, parabéns. Ficou ótima, como nao poderia deixar de ser;
Aponto a conclusão (hmm, será que em cronica posso chamar assim?) ok, como a nata do texto. Digo, a melhor parte. Já ouviu aquele jargão que diz que “(…) só estava a nata da nata da sociedade e bla bla bla”?Entao, Vejo suas cronicas assim. Achei incrível como amarrou o texto inteiro com interpretações sutis, claras, marcantes e doces.rs! Ainda vou comprar um livro seu e, após o trabalho, irei ler com café e biscoitos de nata!!
Comentário por Ana Righi — Maio 21, 2007 @ 4:30 pm
Só quem teve o privilégio de prova essa maravilha da culinária sabe seu valor !
Você sabe traduzir de maneira impecável e com extremo senso de humor momentos simples e pequenos da vida, nos fazendo compreender melhor como a percepção de cada instante não tem fronteiras …
Saudades estamos todos nós, não pare de escrever !
Bjusss
Comentário por Ricardo Moura Jr. — Maio 21, 2007 @ 5:36 pm
Faz 3 meses que moro em Salvador. Engordei 2 quilos! A culinária daqui é um verdadeiro espetáculo. Dá até medo! aha
bjos
Comentário por Fran — Maio 21, 2007 @ 7:02 pm
Oi Lorena!
jajaja muito bonita crônica!!
Eu a felicito, você tem o don da escritura!!
de algo simples você pode fazer uma grande história!!
Muitas Felicidade!!!!
¨ Espera tu pelo Senhor; anima-te, e fortalece o teu coração;
espera, pois, pelo Senhor.¨ Salmos 27:14
Muitas Saudações e Sucessos !! =)
Leandro!
lean_aj@hotmail.com
Comentário por Leandro! — Maio 21, 2007 @ 10:58 pm
Lorena, dizem que nada acontece por acaso e eu acredito nesses dizeres, ainda mais que descobri suas cronicas desta maneira. Resumindo, um dia o sobrinho do meu marido olhando o orkut dele aqui em casa me chamou pra mostrar fotos suas, dizendo o quanto vc é linda e blá blá blá…. bem, depois de eu dar um bronca nele por estar bisbilhotando seu orkut ele entrou no seu blog e pra surpresa minha, me deparei com umas crônicas deliciosas de serem lidas. Depois disso sempre venho eu dar uma olhada no seu blog pra ver se encontro uma nova leitura. Você não me conhece mas mesmo sendo insignificante o que penso, quero te dizer que concordo com o comentário acima pois também acho que ainda vou comprar um livro seu pra ler depois do trabalho e com muito gosto farei isso. Felicidades a você que me faz pensar em Mário Quintana quando leio o que vc escreve e me passa de maneira modesta seu jeito de ser ( te vejo como uma mulher dinamica que sabe o que quer, que valoriza seus dons, e um deles é escrever).
“O pintor Waldeny Elias atende à campainha de seu ateliê na rua General Vitorino e lá está Mario Quintana. Viera agradecer pelo presente, uma “pintura de bolso”, de 6 cm x 4 cm. Levava-a, contou com um sorriso português, “na algibeira do fato domingueiro”. Retribuiu presenteando o velho amigo com o recém lançado livro do Caderno H.
Na dedicatória, justificou porque não havia aceito um quadro grande que o pintor lhe oferecera.
- Elias, me desculpe e acredite. Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes…”
(Juarez Fonseca, Oras bolas – O humor cotidiano de Mario Quintana, Artes e Oficios, Porto Alegre, 1996.
Te vejo assim, envolvida em seus horizontes e te admiro por isso.
Um grande abraço. luciana.
Obs: e vc é realmente linda. E já que tenho o displante de olhar sua página do orkut, fique a vontade pra olhar a minha, rsrsrsrs procure por Jair e Luciana Chiele.
Comentário por Luciana — Maio 22, 2007 @ 1:04 am
que bom que retornou ! não fique tanto tempo assim sem postar em seu blog !
achei que o tivesse abandonado e fico muito feliz por não ter feito isso !
Comentário por paula — Maio 22, 2007 @ 2:30 am
Até que enfim hein minha filha….?!
Tive que imprimir (como sempre) seu texto para ler… E (como sempre) adorei! =)
Bjooo
Comentário por kkkarol — Maio 24, 2007 @ 7:01 pm
Sensacional. Vc vai criando e escrevendo, eu vou lendo e imaginando… Sintonia perfeita, exceto pelo fato de não te imaginar DE JEITO NENHUM de moleton e chinelo nem por Niterói, quanto mais por Sampa.
Comentário por Dora — Maio 28, 2007 @ 2:14 am
Perfeito. As sensação de descoberta e de ter uma surpresa agradável se torna cada vez mais rara com o passar do tempo. Acho que isso acontece em parte pela experiência acumulada mas na maioria das vezes por estarmos muito preocupados com a rotina. Não nos damos tempo de parar para olhar para os lados e se deixar ser surpreendido. Pelo menos pra mim, falta tempo. E nada melhor do que ser espontâneo e “carefree” como dizem aqui nos EUA…em uma cidade com tanta capacidade para ser desconfortável como São Paulo, nada melhor do que sair na rua de moletom e havaianas. Adoro.
Comentário por Alexandre — Agosto 4, 2007 @ 7:43 pm
Olá Lorena, como vai você?
Provavelmente não deve se lembrar de mim, sou Gerente do Restaurante Toca de Jurerê aquele em Florianópolis, onde você teve o prazer de saborear o “Camarão á Jurerê” aqueles camarões Recheados com catupiry, que mais parecem coxas de frango com aquele arroz coberto com nata.
Lembrou?, Fico feliz em saber que você gostou, a Propósito todos aqui gostaram muito de sua crônica.
Esperamos recebe la em nossa casa mais vezes, afinal, temos vários outros pratos com nata.
Um abraço,
Atenciosamente: Elias de Souza
Restaurante Toca de Jurerê
Comentário por Elias de Souza — Janeiro 17, 2008 @ 11:10 pm
Você escreve bem heim menina. Parabéns!
Comentário por Lívia — Fevereiro 7, 2008 @ 8:45 pm