Nunca gostei de encher bola de festa. Ainda mais se for de cor cinza, como o céu deste domingo.
O gosto seco e a textura áspera do plástico que tocamos os lábios para fazer crescer o ornamento faz tudo começar mal. Boca sabe muito mais do que cabeça e sente mais que coração. Boca não gosta de sabor ruim, nem de beijo falso. Boca não engana. Quem engana passa por ela com medo de ser mordido.
Mas aí você ludibria o paladar e continua o serviço de inflar. Expira tão forte que parece que algo além de ar também saiu do pulmão. Isso pode assustar os mais analíticos, como eu. Qual equipamento define o que pode sair e entrar naquele momento? E se, nesse movimento, se for um pedacinho de mim? E se entrar um pedacinho de alguém?
Levei um tempo para aprender a dar o nó na bola. Na verdade, depois que aprendi, também fingi em muitos momentos que não sabia, só para evitar a prática. Exige rapidez e uma certa coragem. Depois de lacrado, o que tem ali dentro só sai se alguém estourar, quiçá com um alfinete.
Hoje, estou me sentindo como se tivesse enchido todas as bolas de festa do mundo.
Vazia.
Engraçado que isso acontece justamente após ter me sentindo, por muitos dias, cheia de si.
Todo mundo também é seu próprio alfinete.
Encosta a boca, dá o que tem dentro do corpo e da alma, vigia para que aquilo não escape, sela, pensa que vai durar a eternidade e depois, acaba estourando. E aí, parece que abriram a caixa de Pandora. Tudo se esvai com o vento e parece que nunca existiu, mas até pouco tempo tinha forma e cor, e até voava.
Tem que ter coragem para dar fim à uma bola dessas. E ouvidos protegidos. O barulho é tão silencioso que te aprisiona. Parece o som de uma eternidade meio calada.
Então falar me pareceu uma boa opção.
Alguém aí quer fazer festa?
…
Após um longo inverno…
Ânimo! Só os indivíduos seletivos podem se dar a oportunidade de estar vazios de si. Sempre boa ocasião para procurarmos nos encher de sentidos! Assim penso. Abraço!
Comentário por wagnermoura — Abril 7, 2008 @ 7:38 pm
Adorei o texto.
Principalmente a analogia da nossa vida com o balão de aniversário…. Horas estamos tão cheios, inflados… outra estamos tão murchos, pior a sensação de que alguem nos alfinetou.
Adorei o trechinho:
“Hoje, estou me sentindo como se tivesse enchido todas as bolas de festa do mundo.
Vazia.”
Lembrei de que várias vezes me senti assim!
Bjos
Comentário por Raphaela — Abril 8, 2008 @ 4:37 pm
o pior é quando vc tem certeza que o balão não vai estourar, mas ele estoura e te machuca….
bjos
Comentário por Lia — Abril 9, 2008 @ 1:03 am
Lilili… Saudades…
Sou incondicionalmente sua fã, adoro seus textos e tudo mais !!!
Beijinhos
Comentário por Helena — Abril 10, 2008 @ 3:03 am
Lorena, Lorena, passei muito tempo sem vir aqui e bem down estou num início de segunda procurando alguma coisa pra ler que me tire a angustia da rotina que outra vez começa somado a algo mais chamado probleminhas (comum a todos), mas vamos lá, depois de ler algumas coisas vi sua foto no meu orkut e me lembrei de seus textos, é… nada é por acaso, diria que tudo de bom, perfeito ler esse texto a muito por vc escrito e só agora por mim apreciado. Vc tem toda razão, todos nós já nos sentimos bola de festa, comparação sem igual.
Agora digo que se vc for excelente jornalista como é escritora, não demora vou te ver na telinha e vou dar um pulo de susto mas muito mais de alegria pelo seu sucesso.
Um grande abraço, fica com Deus e que vc Lorena fique o máximo de tempo cheia de coisas boas porque vc merece.
Luciana Chiele
Comentário por Luciana — Junho 2, 2008 @ 5:16 am
Olá moça. Estava na página da Conectrends (dos meus amigos Rafael e Nice), quando ví já tinha invadido seu Blog. OS textos são muito legais e bem escritos.
Você trabalha idéias interesantes com muita sensibilidade.
Se não fossem os alfinetes, não poderíamos perceber o valor da festa.
Parabéns.
Jr
Comentário por Junior — Julho 4, 2008 @ 4:50 pm