Crônicas, Crises, Cotidiano

agosto 23, 2008

Meninas de ouro

Filed under: Uncategorized — pelanoitedorio @ 5:00 pm

Quebrando o protocolo da preguiça carioca, a Gávea acordou cedo, em plena manhã chuvosa de sábado, para soltar fogos e gritos. Vozes vibrantes, em maioria masculinas, orgulhosas de nossas meninas de ouro, ecoaram pelos prédios, agitando a cachorrada. Um alarde que tentava atravessar o globo e chegar até Pequim. Até os ouvidos de uma seleção que jogou com a alma, espalmou um passado dramático e cravou uma vitória que já tardava a acontecer.

E no lugar das comemorações embriagadas e cambalhotantes, regadas a álcool e salgadinhos, um café da manhã tranquilo, em companhia da família e do bicho de estimação. Uma vitória com cheiro e sabor de pão quentinho. Com direito a um sonho dourado de sobremesa, que não se encontra em padaria. 

Parabéns, seleção feminina de volêi.

( Tinha que extravazar meu patriotismo tolo de Olímpiada, que tem tirado meu sono e molhado meus pijamas de lágrimas. )

agosto 6, 2008

Pliê( sic)

Filed under: Uncategorized — pelanoitedorio @ 4:54 pm

Lá estava ele. Ao compasso ensurdecedor de buzinas e motores histéricos por velocidade, marcando o ritmo da miséria com os pés.

Iluminado pelo sinal vermelho, lá estava ele, devidamente magro, por força da fome, apresentando-se de braços abertos num balé de indiferença, sem cortina, nem aplausos.

A pele colada nos ossos substituía pertubadoramente o colan de lycra.  O que ficou evidente quando, subitamente, ele levantou a camisa esburacada pelo tempo para fazer uma pirueta de clemência.

Ao expôr sua barriga murcha e pelada, o raquítico bailarino queria mostrar para o público , confortavelmente disposto dentro de cada carro, que não havia nenhuma arma em sua cintura.

Deu uma, duas piruetas, equilibrando-se na ponta dos pés, na tentiva de ser visto por todos, inclusive por aqueles que estavam nos altíssimos ônibus.

Se recompôs e começou a equilibrar limões, fazendo balé com as mãos. Os olhos, curiosamente, não conseguiam se concentrar no malabarismo. Buscavam rostos comovidos e vidros entreabertos.

Abri o meu, e agradeci o espetáculo com uma moeda de um real. Ele me agradeceu com um sorriso e um pliê.

E quando olhei pelo retrovisor, lá estava ele, no canteiro da rua, fazendo música com as poucas moedas que balançavam no seu bolso.

Pliê.

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