Crônicas, Crises, Cotidiano

Agosto 6, 2008

Pliê( sic)

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 4:54 pm

Lá estava ele. Ao compasso ensurdecedor de buzinas e motores histéricos por velocidade, marcando o ritmo da miséria com os pés.

Iluminado pelo sinal vermelho, lá estava ele, devidamente magro, por força da fome, apresentando-se de braços abertos num balé de indiferença, sem cortina, nem aplausos.

A pele colada nos ossos substituía pertubadoramente o colan de lycra.  O que ficou evidente quando, subitamente, ele levantou a camisa esburacada pelo tempo para fazer uma pirueta de clemência.

Ao expôr sua barriga murcha e pelada, o raquítico bailarino queria mostrar para o público , confortavelmente disposto dentro de cada carro, que não havia nenhuma arma em sua cintura.

Deu uma, duas piruetas, equilibrando-se na ponta dos pés, na tentiva de ser visto por todos, inclusive por aqueles que estavam nos altíssimos ônibus.

Se recompôs e começou a equilibrar limões, fazendo balé com as mãos. Os olhos, curiosamente, não conseguiam se concentrar no malabarismo. Buscavam rostos comovidos e vidros entreabertos.

Abri o meu, e agradeci o espetáculo com uma moeda de um real. Ele me agradeceu com um sorriso e um pliê.

E quando olhei pelo retrovisor, lá estava ele, no canteiro da rua, fazendo música com as poucas moedas que balançavam no seu bolso.

Pliê.

2 Comentários »

  1. Lindo, real e comovente!

    ana righi

    Comentário por Lorena — Agosto 8, 2008 @ 1:42 am

  2. Triste… e trsite por ser real…

    Comentário por Raphaela — Agosto 27, 2008 @ 3:16 am


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