Lá estava ele. Ao compasso ensurdecedor de buzinas e motores histéricos por velocidade, marcando o ritmo da miséria com os pés.
Iluminado pelo sinal vermelho, lá estava ele, devidamente magro, por força da fome, apresentando-se de braços abertos num balé de indiferença, sem cortina, nem aplausos.
A pele colada nos ossos substituía pertubadoramente o colan de lycra. O que ficou evidente quando, subitamente, ele levantou a camisa esburacada pelo tempo para fazer uma pirueta de clemência.
Ao expôr sua barriga murcha e pelada, o raquítico bailarino queria mostrar para o público , confortavelmente disposto dentro de cada carro, que não havia nenhuma arma em sua cintura.
Deu uma, duas piruetas, equilibrando-se na ponta dos pés, na tentiva de ser visto por todos, inclusive por aqueles que estavam nos altíssimos ônibus.
Se recompôs e começou a equilibrar limões, fazendo balé com as mãos. Os olhos, curiosamente, não conseguiam se concentrar no malabarismo. Buscavam rostos comovidos e vidros entreabertos.
Abri o meu, e agradeci o espetáculo com uma moeda de um real. Ele me agradeceu com um sorriso e um pliê.
E quando olhei pelo retrovisor, lá estava ele, no canteiro da rua, fazendo música com as poucas moedas que balançavam no seu bolso.
Pliê.
Lindo, real e comovente!
ana righi
Comentário por Lorena — agosto 8, 2008 @ 1:42 am |
Triste… e trsite por ser real…
Comentário por Raphaela — agosto 27, 2008 @ 3:16 am |