Crônicas, Crises, Cotidiano

Janeiro 22, 2007

Oh, Happy Day

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 3:35 am

Íntimo e pessoal.

Quero um amor assim.

E uma carreira como a da Michelle Phiffer no mesmo filme.

Ser uma brilhante jornalista, com aquela capacidade admirável e invejável (inveja branca) das suas introduções sensíveis para cada matéria, as ofertas de trabalhar nas emisssoras top 15, e principalmente aqueles ferozes olhos azuis. Ficam bem na câmera, me ajudaria.

E aquele amor? Repleto de desejo e cautela, suporte e paquera, reportagens e sacanagens, chão e cama, em casa e no trabalho.

Ai ai… É… estou nostálgica hoje.

Culpa dos diários. Isso. Feriado em casa, nada pra fazer, fui visitar minha mãe e ficar no meu antigo e saudoso quartinho convindando a adolescência. Procurando por uns documentos, acabei achando as anotações das minhas descobertas, lamúrias, infinitos grandes amores da minha vida, medos e poesias, em folhas coloridas, contornadas por adesivos, fotos, cheiros e muitos…. muitos corações. Menina adora corações.

Eita época gostosa quando todo amor é delicioso e eterno até que o próximo chegue com um novo bombom e flores, novas dores. Anseio para aquela ligação que já tarda 24 horas para acontecer… ” Será que me esqueceu?” Tudo era tão intenso e verdadeiro, por mais que durasse 1 ou 2 dias. Isso inclui também o amor a mim mesma, que em noites preenchia uma folha com “Eu sou linda” e no outro ” Por que ninguém me quer?” Esse “Eu sou linda”, particularmente, me fez rir. Acho que nunca escreveria isso hoje, não com tanta convicção e tantos coraçõeszinhos.

O paixão pelo teatro com o tesão inesgotável para os ensaios, ansiedade para a conquista dos papéis, os rituais para as estréias, o sentimento de nirvana, alcance de Deus. Chorei. Chorei sim. Como quem lembra do amor que mudou pra longe, e para quem teme mandar cartas.

Contabilizava tudo. Beijos, telefonemas, idas ao salão, ao shopping, à festas, convites, foras, brigas com minha mãe, compras, dias que faltam, dias que faltaram, aniversário de namoro, de amizade, coisas boas e ruins do ano.  Haja lápis.

Aí deu vontade de agarrar o ursinho que tava hibernando na estante, pular na cama com os pompons de cheerleading que foram chacoalhados no meu intercâmbio nos EUA, tirar o pó da caixa velha de sapatos e as fotos da infância de dentro dela, comer o cachorro quente da mamãe, e rever filme velho com a dinda. “Íntimo e pessoal”

Gosto de relembrar. Tá decretado. Os diários serão repassados à minha futura filha que vai se chamar Lia. A linhagem das L. Laura (vovó), Luiza (mamãe), Laila (afilhada), Lorena (eu) e Liz (minha futura filha). Ana Liz. Ana em homenagem a minha grande e eterna melhor amiga. Ana Maria, que vai batizar a filha com meu nome. É para ela que dedico este trecho, de 26 dezembro de 2002, com 15 anos.

” Nani continua sendo minha melhor amiga - e esse ano mais ainda. Cuidou de mim quando fiquei dodói, quando tive meus ataques depressivos de amor e etc. Me aturou nos dias de stress e baixo-estima (sic), rimos muitos (sic), fomos para Porto Seguro, fizemos altas noitadinhas … e principalmente fizemos o símbolo da amizade no tornozelo. É pra sempre”.

É pra sempre, Ana.

Para completar o dia Doriana, mamãe fez uma cesta de doces, com laçarote e plástico barulhento, e me deu após o almoço. Sabor da infância. Obrigada, mãe.

   

Janeiro 18, 2007

Quem não se comunica, se trumbica!

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 9:15 pm

- Estaremos aqui com a Lorena Ribeiro hoje, nova integrante do programa Canal Aberto e correspondente do Rio de Janeiro. Bom dia, Lorena!

- Bom dia, José Maurício, Bom dia ouvintes da rádio ( Hummm… qual o nome da rádio mesmo? Olha no papel rápido, Lorena. Costa do Sol. Isso ) Costa do Sol!

Levanto. Dou um pulo ligeiro para o lado do operador de som, e vislumbro todos aqueles botões como uma criança baba em cima de um videogame. Pergunto como coloca as músicas, onde vê a hora, qual a frequência, o que é isso, o que é aquilo. Volto para a mesa do estúdio, e o Zé comenta para os ouvintes:

- Mas a Dona Lorena é uma menina curiosa, já foi ver como tudo funciona por aqui!

E eu respondo com entusiasmo, alto e bom tom, às 6:45 da manhã:

- Tem que saber como é que funciona PELA FRENTE E POR TRÁS!

……………………..

Gargalhadas. Menina esperta.

Foi assim minha incursão no radiojornalismo hoje, em meio a muito café, olhares desconfiados, algumas gagueijadas, e muitas risadas.

Descobri esse interesse pelo veículo há pouco tempo, diante uma proposta de trabalho. Resolvi buscar um curso rápido que me desse alguma noção sobre o que eu estava me metendo, e me surpreendi. A-d-o-r-e-i. Me lembra a época do teatro, não tem como negar, até porque devo aos oito anos de sua prática a minha dicção atenta e entonações atrativas. É como interpretar o papel de repórter, e sê-lo ao mesmo tempo. Orgasmo múltiplo.

Li três notícias, mas agora só lembro integralmente da primeira, que falava sobre a liberação por parte do governo federal de 25 milhões de reais para a reparação das estradas prejudicadas pela chuva.  Não me avisaram que eu ia fazer a locução das matérias, simplesmente, em questão de 30 segundos, recebi as três folhinhas, dei uma passada de olhos buscando por possíveis problemas com pronúncia, circulei algumas palavras… e AO VIVO. Lá estava eu. Casando respiração, entonação, ritmo e ansiedade. O Quadrado Mágico se virou nos 30, e deu gostinho de quero mais.

A rádio é de interior e pequena, as matérias não são exclusivas tampouco contam com grandes depoimentos de personalidades ( AINDA ! Porque vou batalhar nisso), mas me encantou. Como há muito tempo não me sentia, desde que me distanciei dos palcos, parecia que estava em casa.

Jornalismo deve ser mesmo uma cachaça, como um locutor pé-de-cana me confidenciou antes de entrar pro seu time.  

Escrever, ler, falar, interceder, apresentar, denunciar, citar, criar… é comigo mesma!

Afinal, quem não se comunica, se trumbica… pela frente e por trás!

 

Janeiro 14, 2007

Razão da minha vida (Parte 2)

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 4:30 pm

Os Hernandes foram detidos na terça-feira, em Miami, por terem declarado incorretamente à alfândega norte-americana que não carregavam mais de US$ 10 mil cada. O casal portava, entretanto, US$ 56 mil em espécie.O Consulado dos Estados Unidos no Brasil confirmou que o casal se encontra detido em um presídio nos Estados Unidos

No Brasil, Sônia e Estevam são acusados de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, evasão de divisas e estelionato. Os crimes envolveriam as doações feitas pelos fiéis e a abertura de “empresas fantasmas”.

(Folha Online 14/01/03)

Entendem agora de onde vem meu ceticismo quanto a crebilidade, função e divindade de palavras proferidas dentro de Instituições Religiosas? Sinto agora o gosto amargo da Revelação. Mantenho a minha fé em Deus e na justiça, e também a minha repugnância pelo fanatismo e ilusionismo.

RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!!

Janeiro 12, 2007

Muita calma nessa hora!

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 3:35 pm

É, galerinha…. Completo hoje 20 anos nesse mundo com distúrbio bipolar, meu adorável detestável. O número arredondado dá uma certa sensação perigosa e excitante de transição, e ao seguir este conceito fico até com frio na barriga. Tudo bem, eu também escandalizo. Há 10 anos atrás, eu pensava que em 2010 iria para a faculdade de colete voador, que assistiria uma TV que reproduziria a imagem no ar, e poderia passar por ela pra ir à cozinha. Mal podia imaginar que a única estimativa que se tem para a primeira década do segundo milênio é um novo apagão no Brasil, como o de 2001. Haha. Imaginação de criança.

Entretanto, acho que vou seguir o jargão de Lula para seu novo quadriênio no troninho (não… não fiz alusões aos seus dejetos, ou melhor, projetos… ou fiz? estou sarcástica hoje): DESTRAVAR. 

Vou destravar da minha procrastinação. Sou uma pessoinha enrolada mesmo. Chega de deixar tudo pro amanhã, pra daqui a pouco, pra mais tarde. Já se passaram duas décadas afinal, e apesar de consentir que já conquistei bastante em minha vida, meus objetivos são tantos e tão ambiciosos que não cheguei nem à metade da lista ainda. Vou comprar uma agenda, um despertador e uma pasta amanhã. Serão meus presentes para a minha preguiça e desorganização. Ponto!

Vou destravar do pessimismo. Difícil, difícil nos dias de hoje. Principalmente no dia de hoje, quando acordei tão contente com meu novo número, liguei o rádio, e ouvi que também se aproveitaram dele. 20 bandidos fizeram um arrastão no Túnel Rebouças durante a madrugada.  Eu tento, mas ninguém me deixa sossegar, viu. Já acordei por conta, sr. Sérgio Cabral. Com essa carreira de jornalista que apaixonadamente escolhi para mim não vai ser diferente. Pessimismo transformado em trabalho, em denúncia, em busca, em informação. Mão na massa.

Tirar a trava nos relacionamentos também. Só tenho um patinho na lagoa ainda, mas ele já me ensinou que realmente a família é um dos melhores presentes que se pode receber de Deus, e que conservá-la, respeitá-la, conquistá-la diariamente é a promessa de uma estória com suporte e amor, acima de tudo. No que se trata de vida conjugal, os candidatos a um relacionamento sério, prazeiroso, divertido, comprometido, fiel, criativo, sensual, mas um pouquinho briguento (sou simmmmm ciumentinha e sou simmmm implicante, e ponho a culpa no tamanho – 1,60m de culpa), devem estar escondidos por aí. Por sua vez, eu já resolvi aparecer. Estou me mostrando, é isso que eu quero. Não vou mais me enganar e nem a mais ninguém que essa coisa de noite, música alta, voz rouca, bebedeira e beijos anônimos me seduzem. Quero alguém para me telefonar todo dia às 19h e perguntar como foi o dia, pra acordar junto nos finais de semana, e ir ao cinema ver filme de terror. Quero casar nessa década ainda. UAU! Grinalda, buffet, brigas com a sogra, discutir a lua-de-mel, filhos-em-quantos-anos. “MUITA CALMA NESSA HORA…” Adesivo que li ontem numa papelaria enquanto tirava xerox de uma papelada. “… AQUI TEM UMA FILA”. Uma coisa atrás da outra, Lorena, vai com calma.

Destravando mais um pouco, vou escrevendo essa crônica, e chorando. Em menos de 20 minutos (eu acredito em acaso), recebi três telemensagens e chorei com todas. Meu irmão internacional me liga com uma voz camuflada de choro, e me faz chorar junto. Chorar é bom, né? Eu gosto. Papai também, me contou ontem. Bom saber que se é atingível, não gostaria de viver sem nunca ter sentido essa dorzinha no peito, vontade de cólo, de chamar a minha mãe. Chorar de alegria hoje vai ser recorrente. Graças a Deus.  

Agora que me tornei uma mulher que viu o celular surgir, o fita cassete ir embora, a internet explodir, as Torres Gêmeas também, o Senna vir e ir, os Mamonas também, a princesa Diana também (que mulher!), meus pais se separarem, meu irmão sair do país, e eu me mudar pro Grande Rio, é hora de novas surpresas. Zerei. Nova mulher. Oba!

Inclusive, minha prima comentou que tenho que começar a fazer tratamento de prevenção para a pele. Haha. Achei o máximo. Anti-age.

Bobeiras à parte, só queria dividir esse dia especial que faz um sol belíssimo, e no qual estou me escondendo na frente do computador só para fazê-los parte do meu dia, e da minha vida agora em diante. Em 2017, ainda quero estar aqui, e, de preferência, escrevendo sobre o trânsito aéreo que enfrentei para pegar as crianças no colégio voltando do jornal, o preço abusivo do combustível do colete voador, sobre o meu gato gordo e velho, e as flores que recebi do meu marido ao aterrizar em casa.     

Um enorme beijo!

Janeiro 10, 2007

O que mãe pede, a gente faz correndo

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 2:48 am

Estou eu tirando o sono dos reis ontem em plena tarde de segunda-feira de férias, quando minha mãe me liga com um pedido: “Filha, você poderia escrever um texto bonito daqueles que sabe fazer para colocar na capa do Livro de Ouro que irá arrecadar contribuições para os desabrigados com a chuva?” “Uhum, mãe, me passa alguns dados depois, e faço isso pra você”. Perdi completamente o sono.

Minha mãe trabalha na Secretaria de Políticas Sociais de uma prefeitura, e hora ou outra me conta das tragédias que presencia todos os dias, narrando os males submersos de uma cidade pequena com poucos recursos, os pedidos desesperados e molhados de uma cesta básica, uma cirurgia, remédios, e em menores casos, emprego.  Não vou criticar a preguiça e ignorância do brasileiro e seu complexo de Jeca Tatu. Não hoje.

Ela me contou que 650 pessoas ficaram desabrigadas após as insistentes chuvas desde o reveillon. O que deveria ser a proposição de uma nova vida para toda essa galera ao zerar da meia-noite tornou-se a anulação do pouco que tinham. Isso me dá arrepios. Ser expulso de sua própria casa por uma corrente de água que veio justamente do céu, de onde esperavam vir tantos outros milagres.  Imagino o estrondo dos tiros das gotas sobre o telhado frágil, as panelas miradas nas proteções vazadas, as crianças chorando, o frio…  O dia seguinte. Do lado de fora de casa. Permanentemente. As roupas emboladas em sacolas, os pés descalços, a busca pelo que restou.

Tudo isso na primeira semana do ano, enquanto eu inicio cursos de férias, uns amigos viajam em busca do sol que fugiu do Rio,  minha amiga retorna de Buenos Aires, muitos planejam o carnaval, e outros reclamam da chuva que não pára debaixo dos cobertores.

Me comovi. Tentei ajudar, e escrevi esse texto que pretende ser breve, real e tocante. Espero ter conseguido.

           “A natureza nada faz sem objetivo”, proclamou o famoso filósofo Aristóteles em sua obra Politics. Nos últimos dias de 2006 e primeiros de 2007, ela fez muitos questionarem o seu lamentável propósito com a calamidade provocada pela intensa chuva que não parou de cair por dias, destruindo lares, sonhos e famílias. As águas que penetraram em centenas de casas carregaram a expectativa de um novo ano repleto de esperança e novas oportunidades. Dias depois, as vidas de 650 pessoas em Araruama estão secas de qualquer alegria, e as lágrimas, ironicamente, tentam enxugar as feições mudas, cruas, fracas, nuas.

            Indago-me como é possível comemorar o parto de um ano virgem enquanto 153 crianças afundam seus pés na lama, 274 homens e mulheres não têm onde acolher seus entes queridos, nem a si mesmos, 57 idosos não têm uma poltrona para lamentar o pouco tempo que ainda lhes restam, 117 adolescentes não tem mais um endereço para colocar na caderneta do colégio, e 49 pessoas nem ao menos tiveram suas idades identificadas.

            Só posso entender que a Natureza tentou nos promover uma mudança de atitude. Fazer-nos enxergar que temos nosso papel de resgatar a vida em comunidade, a preocupação com o próximo, o poder humano de ajudar. Ainda citando outro pensador brilhante, Albert Einstein, “O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”. Não sejamos apáticos diante da dor do outro, não podemos observar o seu desfalecer mantendo-nos na segurança de nossas residências e no calor das nossas camas. Se não podemos tornar o mundo um lugar mais seguro, vamos tentar tornar a vida dessas 219 famílias mais branda. Faça um gesto nobre nesse início de 2007, dê a vida para quem a perdeu.

            Entenda. Se comova. Colabore. Não deixe o mal acontecer.

            Lorena Ribeiro, em nome dos 650 desabrigados,  da SEPOL de Araruama, e de um mundo melhor.

         P.S: Lia Winter, me inspirei na citação do seu blog!!!!!! Mal entrei nesse mundo, e já estou me aproveitando dele! Boas idéias devem seguir à frente, mesmo que a citação não esteja exata. rs

Janeiro 6, 2007

Razão da minha vida

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 8:06 pm

Frei Valdomiro. Por onde será que ele tem andado com sua batina cheirando à perfume de flores e seus lenços de cetim vermelho sobre os ombros? Lembrei que ele era convidado para todos os meus aniversários quando criança. Meu pedido. Nos churrascos da igreja, o Tio Valdo era a primeira pessoa que eu procurava, e quando foi substituído por um tal de Frei Goretti, a espera pelo domingo já não era a mesma. Não gostava de forma alguma do novo Frei, pois além de possuir um sotaque terrível de entender, não encontrava carisma em suas palavras, muito menos conforto em seus versos.

Pode ter sido ali que se perdeu.

Lembrei-me também de uma certa lâmpada vermelha que tinha no canto direito do altar, aonde meus pais e eu sentávamos nas missas, logo ao lado do padre. Meu irmão nunca ia, não sei se por descrença ou para brincar de videogame com o vizinho, seu eterno vício e pecado.  Hoje, acredito que aquele lugar deveria ser cobiçado pelas religiosas fervorosas ou pecadores em urgência de perdão, mas para mim era um tanto desconfortável. Primeiro porque dali dava pra todo mundo ver que eu estava mascando chiclete, o que meu pai achava um absurdo, e me mandava cuspir em dois segundos. Depois, porque se eu, eventualmente, ficasse mais distraída ou cansada, tinha que engolir os meus bocejos, e logo pedia desculpas a Deus por não estar prestando atenção.

De qualquer forma, era ali que repousávamos todo domingo, quando em um destes perguntei à minha mãe. “Mãe, o que é aquela lâmpada vermelha acesa?”  E ela respondeu que a lâmpada estava acesa para indicar que Deus estava ali, ou Jesus, sei lá, nunca entendi a diferença entre pai e filho. Sei que fiquei longos instantes olhando para aquela luz que não apagava, nem piscava… ”Deve ser Deus mesmo”. Fiz o sinal da cruz, mas continuei procurando pelo interruptor ou pelo fio.  ” Será que quando fechassem a Igreja ela ia desligar?”

Ou ali.

Aos poucos, a lembrança da minha catequese inacabada por duas vezes também veio para o jogo. Cheguei a pensar que eu tinha alguma coisa ruim dentro de mim, pois não me sentia bem dentro daquela sala de aula da igreja. As outras crianças eram bem mais novas que eu, o chão era gelado e as paredes de uma cor cinza nada convidativa. Mesmo sendo apenas uma criança de 8 anos, achava tudo que pregavam um tanto fantasioso, e foi no dia que falei à professora que Deus não podia dar conta de tudo, pois se “minha mãe deixasse o carro aberto, Ele não ia fechar e alguém ia roubar”, que dei adeus à minha primeira comunhão.

Pode ter sido ali também.

Lembrei-me de tudo isso ontem, quando depois de um longo inverno resolvi visitar uma igreja. Por algum acaso, ou como diria os evangélicos, propósito de Deus, acabei combinando com duas primas, uma que segue solidamente a religião, e outra que procura por uma, de ir a um culto. Quando chegamos lá, descobrimos que o dia dos jovens seria no próximo, e que aquele era o dia das missões, quando um missionário contaria sua jornada mundo afora disseminando a palavra de Deus. A Igreja contava com, no máximo, vinte fiéis. Primeiro, a pastora nos deu as boas-vindas, nos abençoou e deu início aos louvores. Gostei da parte de cantar, das letras puras misturadas ao som da guitarra e da bateria. Os integrantes da banda deveriam ter pouco mais idade do que eu. No quinto louvor, minha euforia já havia perdido o ritmo e resolvi sentar. Olhei pro relógio. Tentei de novo. Então, uma senhora resolveu tomar o discurso e falar de seu testemunho, o que não estava programado para aquele culto. Falou sobre sua ida à Europa com menos de 100 euros, e como pregou os versos de Deus falando português para holandeses, franceses, e eses. Mais uma vez, senti que fantasiavam um pouco demais, e por algum motivo aquilo me irritou. Principalmente, quando ela disse que estava em Paris no meio do ano, e fazia muito frio. Não é verão lá em Julho? Perdi o controle a ponto de proferir umas duas palavras que seriam consideradas pecado e pedi para ir embora, reclamando até chegar ao carro da estória daquela mulher.

Foi ali.

Foi ali que eu percebi  que havia tempo que não parava para pensar em Deus, apesar de acreditar escudeiramente em seus propósitos. Aquilo me assustou. Por minutos, pensei estar possuída. Por outros, estar tão apaixonada pelos prazeres terrenos que me corrigir para o caminho Dele agora seria muito frustrante. Por outro, achei que apenas ainda não tinha achado uma religião que me definisse como seguidora. Quase por fim, coloquei culpa na razão.

Enquanto muitos enchem os olhos de lágrimas para enaltecerem Deus dizendo que Ele é a razão de suas vidas, enchia os meus pedindo para que Ele usurpasse da minha tanta razão. Verdade que ando muito pragmática. Tudo com um fim. A desconfiança faz parte do dia-a-dia, a ciência está aí emagrecendo rotineiramente o peso da fé, dos milagres, do acaso. Tudo é explicado, cronometrado, sintetizado, nanonizado. Fiquei assim também. Estudo e leio tanto a respeito de fenômenos factuais, sociais e atuais, que o encantado me cria desconfianças. Acho que gelei.

Ainda lá na Igreja, observava minha prima louvando, erguendo os braços de olhos fechados, batendo os pés ao ritmo do baterista, fazendo poesia de cada verso da música, sorrindo sozinha, completa. Como queria me sentir assim novamente, ou melhor, pela primeira vez.

Simplifiquei Deus. E não me julgo por isso. Na verdade, até defendo minha filosofia religiosa. Acredito em praticar o bem, sem ter o intuito final de colhê-lo. Acredito em ser bom para o próximo, respeitá-lo, assisti-lo, admirá-lo, incluí-lo. Acredito em ser bom para si mesmo, cuidar da sua saúde, dos seus sonhos, do seu coração. Acredito na religião da família, do amor, da solidariedade, da felicidade, da simplicidade. Acredito em evitar vícios, reaver erros, pedir perdão. Acredito no sol de cada manhã e na certeza de um futuro decente, se for correta em meus atos. Acredito que não preciso rezar o pai nosso tantas vezes ou tantos dias, e que Deus me escuta em todos eles, me corrige, me ensina, em troco de nada mais do que a minha fé em Sua existência, sabedoria e bondade. Acredito que Deus conhece meu espírito, e que ele é bom.

Aí eu vi. Ufa! Não me tornei um pedra, anticristã ou cientista. Ainda acredito em muitas coisas. Incrível como estar fora de um sistema pode te fazer sentir subversiva. Respirei. Alívio. E então, vim compartilhar com vocês a angústia que já passou, e que por vezes, alguns podem sentir. Sei que o mundo anda desregrado, mas acreditemos que somos bons. Façam coisas boas, pequenas, diárias. Ajudem-me a firmar a minha religião, antes que eu enlouqueça…

Fiquem com Deus

Janeiro 4, 2007

Moça do elevador

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 6:46 pm

Saí de casa correndo para não me molhar muito. Como se bastasse. Cheguei ao shopping onde fica minha academia ensopada, e entrei na fila para o elevador que estava incomumente enorme naquele dia. 4º andar. Falei junto com um “Boa tarde” pra moça do elevador. Ela respondeu e, me vendo esmagada entre os guarda-chuvas e gordinhos, me ensinou : “Dias de chuva é assim mesmo, deu sorte de não ter pego a leva dos carrinhos de bebê nessa subida. Quando chove, isso aqui enche deles”.  HUM. Quarto andar. Fui malhar.

Depois de mecher os músculos que não são perdoados nem pelo tempo, nem pelos doces, percebi que aquela aula no elevador tinha mechido era comigo. Que observação mais engraçadinha e totalmente cabível. Fazia todo o sentido o shopping ser o refúgio mais próximo das mães com seus filhos encaixotados, mas por algum minuto eu demorei a chegar essa conclusão, e achei aquela mulher brilhante.

Acontece hora ou outra. Tenho minhas esquisitices. Outra dia, indo à praia acompanhada de minha meia irmã mais nova (meia porque não é filha dos meus pais, e “meia mais nova” porque sabe me superar em milhões de detalhes) o pneu do meu carro furou. Desculpas para dizer que eu passei por cima de uma sinalização de obra. O fato é que me deparei com a estupidez de não saber trocar o borrachudo.  De que adiantaram as aulas de francês, oito anos de teatro, 25 aulas de auto-escola, curso de férias de circo, viagens, diploma do ensino médio, livros eruditos, se não sabia me ajudar naquele momento. Então, dois peões de obra se ofereceram, talvez por bons modos ou talvez pelos trajes de praia que eu vestia, a fazer o serviço sujo. E o fizeram de maneira brilhante. Em segundos, com maestria. Hunft.

Então, fui levar o acidentado para um lugar especializado para consertá-lo. Tadinho, perda total. Comprei um  step semi-usado e antes de partir pra minha praia, o funcionário resolveu fazer o balanceamento dos pneus. De entrometida, o acompanhei até a máquina que girava, pesava e dançava o pneu e fiquei tentando entender sua engenharia. Perda de tempo. Aquele dia, me senti uma leiga inconsolável. O João do Pneu me deu um show tentando me explicar tudo sobre pressão, equiilíbrio, segurança… E tem mais: ainda era o chef dos sacolés, denunciado pelos próprios amigos de profissão. Juravam que o sacolé de côco do Jõao era o melhor da cidade. O cara também pilota o fogão, coisa que eu não faço.  Muito bem…

São nesses momentos de esquisitice que minha pequenez se desponta, orgulhosamente. São neles que entendo como sou uma pecinha mínima no funcionamento dessa máquina desgovernada que é o mundo. Como vivemos num sistema que depende da solidariedade funcional, apesar de não praticá-la no social. Como somos rasos em sabedoria, mas ricos em fontes de exploração. Todo dia pode se aprender, com todo mundo. Acho isso magnífico.

Acho magnífico eu não saber fazer minhas compras do mês por menos de dois salários, enquanto minha empregada que ganha apenas um, tem total prática financeira e administrativa nos salões do supermercado. Achei fantástico descobrir que o transporte de minério de ferro é mais barato por via ferroviária, e o de microprocessadores por via aérea, enquanto lia o teste corrigido de um conhecido que ri do meu vocabulário comedido, e não tinha noção de que ele entendia daquilo.

Eu não sei desenhar, não consegui ler “O nome da rosa” do Umberto Eco ainda, e não entendo de números. O Não faz do homem homem. Afinal, temos que duvidar, questionar, achar erros, isto que nos diferencia das máquinas.  Eu canto a beleza de ser uma eterna aprendiz. Roberto Carlos também canta, canta até funk na sua tradicional apresentação de fim de ano.  Fenomenal. Roberto Carlos e Mc Leozinho. A imagem que eu procurava aqui pra esse texto.

Se o rei não se acha rei, por que algumas pessoas se acham detentoras de tanta superioridade e sabedoria??? Bobagem… Sabedoria é um produto perecível quando fica na dispensa muito tempo. A única coisa infinita é a estupidez humana, concordo com Einstein. É de uma burrice incalculável achar que se sabe tudo num mundo que ainda nem sabe de onde veio.  Nada mais cansativo do que aqueles discursos decorados de mentes conservadoras e preconceituosas. Eita gente clichê, insuportável. Não se adquire respeito pelo dinheiro que se ganha, mas sim como o ganha, por tão pouco que seja. Li uma vez. O talento de um homem é o que o ergue, o distingue.  E tem muita gente talentosa nesse mundo. O cara que dá banho no imundo do meu gato é um deles. Agradeço a Deus por ele existir e me poupar de todas as arranhadas. Agradeço a Deus pelo João do Pneu, minha empregada, pela moça do elevador.

Agora, para os pseudo-gênios insuportáveis, tenho uma outra dica. Lembrei deles ontem enquanto voltava pela congestionada Via Lagos do meu feriado de chuva. Passando pela estrada, vi escrito em uma placa torta à minha direita ” Clínica Ego Psiquiátrica”. Acho que vou mandar uns cartõezinhos com o endereço para essa gente esquisita tratar do ego, se é que é pra isso que a clínica servia. Porque eu também não sei. Será que eles sabem? Tomara!

 

Dezembro 22, 2006

Tire os óculos

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 5:08 am

O ideal em um artista, segundo o poeta Charles Baudelaire, seria que ele captasse suas inspirações e observações do dia-a- dia com a franqueza e frio na barriga de uma criança, e também com a paixão e frescor de um convalescente. Seria a tênue ligação entre dois mundos aparentemente distantes: um que goza de uma promessa de vida ainda longa e irrevelada, e outro que conseguiu recuperar a sua vida ante uma possível perda.  O ponto que me refiro é o que sugeri no último post: a sensibilidade como bandeira.

Não só o artista, como todo homem deveria experimentar desse exercício do olhar de vitrine, ainda citando Baudalaire. Esse olhar que, mesmo fisicamente distante, se aproxima do mundo real em sua transparência. Desperdiçamos tantos detalhes no rush do relógio que pouco aproveitamos das revelações que nos são dispostas todos os dias. À tempo, descobri um prazer que vai além dos toques e aquisições: a simplicidade e cumplicidade de um momento vulgar, e sua capacidade de me arrancar o sorriso mais reconfortante e inspirador.

Falo das pequenas coisas sim, mas não no sentido de pregar o altruísmo ou desapego, apesar de considerar tais ações honráreis. Falo dos detalhes na sua natureza intrínseca e descompromissada, que não precisa de marketing, belas curvas, responsabilidade social ou projetos ambientais,  e que se tivessem à venda, pagaria pelo preço mais caro.

Nesse exato momento, falo da explosão de alegria de deitar no chão gelado de uma noite quente ao lado do meu gato persa que se espreguiça, e curtir por alguns minutos o seu carinho de retribuição. Do seu olhar dentro dos meus olhos, do miado quase falado, do roçar do seu rosto no meu. Não acredito que perco isso tantas vezes e tantos dias para ver tv. Sorria e ria sozinha tentando imaginar o que ele pensava da sua dona naquele momento, na primeira vez q me via deitar no chão para ver o mundo da sua altura. Os gatos podem ter mais sentimentos que a gente, acredito piamente e não comprem briga comigo quanto à isso.

Falo também do bom dia do meu porteiro. Não de todos os porteiros, nem de todos os bom-dias, mas o que ele me deu domingo passado, especificamente. Estava sentada no meio-fio do lado de dentro do prédio, esperando pela carona de uma amiga que se demorava. Quando comecei a me afundar naquela solidão esquisita e papel de esquecida sob os olhares de quem entrava e saía da portaria, ele passou, parou, me segurou pela mão, e como se dispusesse de todo o tempo do mundo para ouvir o que se passava comigo, cumprimentou com um BOM DIA quase biscopal. O repeti em sua frase, e ele surge com um complemento: ” Está tudo bem?”.  Permaneceu parado e atento para ouvir a resposta, não foi somente uma expressão de um discurso fático. Quase desmanchei-me em lágrimas, mas respondi: ” Está tudo ótimo”. E permaneci sorrindo por uns dois minutos por causa de um bom dia.

E também da vista do Aterro do Flamengo; do Cristo encoberto pelas nuvens do Rio nublado e encabulado; da chuva fina que conquistou os cariocas nesta quinta-feira escaldante e que refrescou as plantas quase secas do pátio do meu prédio e minha mão que estendi pra fora da janela;  da conversa de 10 minutos que tive na praia, girando em torno de nada grandioso, a não ser da vontade de uma pessoa de estar ao meu lado no único tempo disponível que tinha; das meninas de 12 ou 13 anos, também na praia e atrás da minha cadeira, repetindo todo o roteiro da minha adolescência com um ânimo e astúcia que me desconcentrou a leitura de um livro; do sorriso quase escondido da minha mãe sair comigo depois de meses sem grandes trocas e da tranquilidade que suas mãos dadas às minhas me fez novamente sentir; 

De tudo que não vem com manual ou anunciado, dos brindes que a vida nos dá cada vez que a visitamos sem marcar hora.

Acho que isto, além de fazer um grande artista, faz um grande amante. Amante do amor, da profissão, da família, do dia, da noite. E prometo nunca me desvencilhar deste olhar,  para que ao menos mostre a quem não vê estas pequenas coisas o que está à frente dos seus óculos e dias escuros. É a vida logo alí, olha só. Vai gostar.

Dezembro 20, 2006

São Tomé

Arquivado em: Uncategorized — pelanoitedorio @ 12:02 am

Tenho sorte de não gostar de roer as unhas. Pelo menos, disto a minha ansiedade desmedida me poupa, já no que se trata de insônia… Há! Ela é faceira. Vou cortar o cabelo amanhã? Não durmo. Vou me matricular num curso? Não durmo. Será que vai fazer sol ou chuver? Não durmo.

Ontem, eu também não dormi… até as 3 da manhã. Não devido a um encontro que rendeu, uma festa que se prolongou, ou uma soneca prolongada na tarde anterior… Carência afetiva PLUS a temidaTpm, não poderia dar certo mesmo.  Então, resolvi me dedicar à continuação da leitura do meu último livro de 2006. Bem, não MEU, quem dera, mas do Gabriel García Márquez, aquele das putas tristes… O romance se chama “Do amor e outros demônios”. Fabuloso!

Dentre os episódios mais interessantes e delicados que o colombiano narra com uma destreza sem alusões, um trecho em especial me cutucou o cérebro. ” A incredulidade resiste mais do que a fé, já que esta primeira é mantida pelos sentidos”.  Com esta afirmação, fazia relação ao desânimo e desesperança de um pai ao velar durante toda uma noite sua filha de 12 anos entregue a dores cruéis de uma doença fatal. Tentava manter-se crente, mas ao ouvir as súplicas de auxílio, ao sentir o corpo trêmulo da menina, ao vê-la desfalecer a cada minuto, o cheiro do seu suor e saliva que escorriam pelo rosto, devia ser realmente difícil acreditar que um Deus existe.

A incredulidade tem em seu favor o toque, a realidade, as denúncias de crimes hediondos, as mortes de crianças vítimas da fome, de doença, de gente, da vida. Falo da ginástica necessária e diária da prática da crença em algo que não podemos palpar. Como fazer para crer no amor? Na religião? Na paz? Na igualdade? No ser humano? Não reclamo a autenticidade desses componentes, pelo contrário, acredito que o maior erro tenha sido mutarmos nossa fé no sentido de nossos desejos mais instântaneos, uma fé meio vadia, meio dadeira.

Há escapatória para toda crença… No amor, a traição e o perdão. Na religião, o pecado e absolvição. Na paz, a guerra e a trégua. Na igualdade, progresso e consequência. No automatismo e comodismo que vivemos, tudo sim vem a calhar. Chega no final do dia, dá uma rezadinha. Pronto. Eu creio.

Não sou uma beata, uma pacifista, sequer tenho marido. Mas tento mesmo acreditar nos valores que escolhi pra minha vida com toda cautela e admitir quando estou me perdendo deles.  Tenho medo desse mundo que não se preocupa com o amanhã porque não o vê.  Esse complexo de São Tomé me irrita.

Eu acredito bastante, aliás, acredito até mais. Contrariando o Márquez, acho que prefiro acreditar mais no que meus sentindos não alcançam, do que aonde eles chegam. Posso morrer acreditando que Papai Noel existe e ninguém pode me provar o contrário. Vai dizer que não é bacana acreditar que o velhinho da barba branca tá por aí distruindo felicidade, pelo menos, em um dia do ano.

Não to promovendo a inocência, mas o resgate de uma certa sensibilidade se mostra como uma peça fundamental de oposição para tanta passividade, apatia, atitude blasé. Tenho arrepio dos modismos desacerbados, das anormalidades aprovadas, do moderno desajustado.

Ah, sei lá… Só quis fazer um desabafo. Tenho fé de que vão entender, mesmo tendo jogado tudo num liquidificador.

Boa noite! 

Dezembro 18, 2006

Memória de Elefante (ou Feliz Ano Novo)

Arquivado em: crônicas — pelanoitedorio @ 1:08 am

Farta. Criei fadiga. Preguicei. Chega de denunciar a sociedade que só consome e come, a mídia que sensacionaliza e despolitiza, os homens que mentem e… mentem.  O meu apelo hoje é ambiental: Deixem o elefante em paz. Nada mais de cantar que o grandão incomoda muita gente. Eu vou sacratizá-lo. Afinal, o elefante nunca esquece.

           

            Encontro-me cada dia mais petrificada com a minha capacidade de esquecer. Efeito degenerativo, pergunto-me se é uma patologia pessoal gerada pela insensibilidade ou um vírus que ronda por aí. O caso é que minha frase preferida tem sido: “Ih, esqueci”. Nada surpreendente em tempos que as fotos não são mais impressas, nem coladas num álbum junto ao desenho de sua mão quando criança e um pedacinho de cabelo. Tenho um desse pra lembrar dos velhos tempos. Todos deveriam ter.

           

            À alguns dias para o parto de um ano novo branco com roupas íntimas coloridas, pulando 7 ondas, e Tim-tins, me comovi com a idéia de tantos momentos terem tentado excitar minha memória e nem sequer terem chegado à minha cama no fim do dia. Aos que quebrei o coração, como perspectiva para 2007, sugiro este segundo encontro, relembrando, aleatoriamente, do que esqueci em 2006.

           

            Inicial e lamentavelmente, esqueci de três affairs fundamentais. Esqueci o quanto amo minha mãe, e o quanto ele me faz falta como amiga, conselheira, suporte. Esqueci grande parte do que ela já fez por mim, e o que não fez deve ter sido porque não mereci. Ou porque nós nos parecemos tanto, que a teimosia em dose dupla torna a ressaca mais difícil de curar. Esqueci o quanto amo meu irmão, e o quanto está longe e sozinho no momento. Sua decisão para mudar-se pros EUA foi tão fullgás que o meu bom senso não encontrou tempo de abrir a ferida, que começa a doer agora. Esqueci a importância que minha melhor amiga tem na minha vida, e que passa agora também um tempo fora do Brasil, e logo na Nova Zelândia. Espero que ela se esqueça que aquilo é um paraíso. E volte. Por favor.

           

            Esqueci também que tinha planos para aprender e aperfeiçoar o francês em um ano. Deixa pro próximo. Esqueci de fazer um diário de viagem na minha primeira e mágica ida à Las Vegas. Deixa pra próxima. Esqueci do cinematográfico tombo que tomei enquanto corria na esteira em plena semana de adaptação à nova academia, e que deixou um roxo registrado no O DIA numa sessão de fotos que era pra ser atraente. Que não haja o próximo. Preciso de ginástica pro cérebro.

           

            Esqueci de tirar a segunda via da minha carteira de identidade, mas isso já faz dois anos. Não entra na lista. Risca. Esqueci de terminar de ler A Casa dos Budas Ditosos, e também esqueci o livro na cadeira do salão. Se não fosse aquela capa em tom cereja quase erótico e sua ilustração completamente erótica, teria passado despercebido, mas ainda me lembro da vergonha que senti quando a secretária me ligou com a questão: “Este livro é seu?” Sim. Pornô literário, querida, não se esqueça você também. Sou uma cliente que lê algo além da Caras e Boa Forma, acho que ela achou esquisito. 

           

           

            Mas se trabalhasse pro circo, acho que também ganharia uns amendoins. Ingressei na faculdade que queria, no curso que queria e estou convicta do que quero. Grande felicidade. Finalmente, tive meu primeiro namorado e foram os quatro meses mais simples e tranqüilos da minha vida. Hoje, entendo que aquilo que realmente deveria ser amor, e não os meus relatos de paixões depressivas e viciantes. Saudades. Ainda no campo da primeira vez, experimentei o Maracanã e entendi o saudasismo com o qual todos narram o estádio. Devo uma crônica pra este dia.

            Tenho meu próprio apartamento, meu próprio carro e meu próprio gato. Luke. Nesse momento está aqui, diante do computador, simplesmente pra fazer companhia. Fiz novas amizades, inclusive uma com uma prima. Descobri que laços familiares podem não ser um fim, mas também um início para uma bela estória.

            Ocupei grande parte do meu tempo com festas e algazarras pra entender agora no fim do ano que pouco valeu a pena, mas gosto da parte das danças, confissões, paquera, e auto-estima. Quanto a esta última, também obtive progresso. Tenho plena consciência de muitas das minhas qualidades, a ponto de uma professora insegura da faculdade me taxar de arrogante, e se estou solteira, desempregada e carente, é porque não encontrei algo ou alguém que tope me desafiar. Melhor pensar assim, deveriam experimentar. O ano foi veloz em sua passagem, mas generoso em sua contribuição.

           

            Votos pra 2007? Quero amar mais, trabalhar mais, viajar mais, conhecer mais, ajudar mais, aprender mais, lembrar mais. Sorte do Dumbo, que além da memória, ainda tem aquelas orelhonas para ouvir mais. Nisso, ainda preciso de prática.

           

            Feliz Ano Novo!

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